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Tradição não dará lugar ao “e-Advogado”

Jornal Económico

9/9/2018

Várias sociedades de advogados portuguesas e ibéricas criaram equipas destinadas à transformação do modelo de negócio e procuram novas valências nos candidatos. No entanto, “confiança”, “valor acrescentado” e até “papel” continuam presentes nas rotinas.

As sociedades de advogados portuguesas e ibéricas estão a transformar o seu quotidiano, a automatizar processos e a introduzir no seu dicionário conceitos como Machine Learning, Artificial Intelligence ou Data rooms. Pelo meio, algumas têm piscado o olho a startups de LegalTech, como a Luminance, ou a sistemas como a Kira. No entanto, ainda está para chegar o dia em que o «e-advogado» é uma realidade em Portugal, porque as exigências tradicionais das empresas e organizações perante as grandes firmas mantem-se: reputação, confiança, credibilidade, valor-acrescentado, capacidade de resolver e antecipar problemas e agilidade para definir uma estratégia para melhor servir o cliente.

Ao Jornal Económico, mais de uma dezena de advogados mostraram-se recetivos às novas tecnologias e confirmaram que o trabalho no interior de um escritório já mudou – e a mudança veio para ficar. Mais, ainda irá crescer, para os fazer crescer consigo. Não é a segunda nem a terceira vez que os advogados contactados por este semanário opinam sobre transformação digital, mas é certamente uma das primeiras em que se observa maior unanimidade face a uma mudança que já aconteceu dentro das sociedades, da qual não é preciso ter receio.

Ainda assim, Paulo de Moura Marques lembra que “o setor da prestação de serviços jurídicos é tradicionalmente mais apegado ao papel” e que, apesar da acessibilidade de infraestruturas, plataformas e processos, “ainda é muito comum o recurso à impressão para uma melhor leitura” dos documentos. O sócio fundador da AAMM – Abecasis, Moura Marques, Alves Pereira & Associados refere que o que poderia assemelhar-se a “ficção científica” há poucos anos “aproxima-se a passos largos, sendo o campo dos conflitos de consumo unanimemente indicada como uma das áreas em que ocorrerá mais cedo, cabendo aos advogados preparem-se para tal realidade”.

Na advocacia do futuro, os sistemas de Inteligência Artificial (IA) passarão de meros exemplos ‘aqui e ali’ para regra intrínseca à atividade, acompanhando também o desenvolvimento das redes dos próprios clientes, que começaram a utilizar estas ferramentas sem apreensão e ceticismo característico da maioria dos advogados. “No médio e mesmo no longo prazo, persistirão, sem dúvida, alguns domínios da prática jurídica que continuarão a escapar às virtualidades do software disponível e a exigir a mediação única do advogado, mas as soluções tecnológicas não deixaram de ser decisivas como instrumento de eficaz recolha, organização e tratamento de informação volumosa e de conteúdo repetitivo, de análise e extração de conclusões quantitativas, de controlo de processos e projetos de escala no que respeita a orçamentos, prazos, alocação de equipas e gestão de rentabilidade”, exemplifica Mafalda Seabra Pereira, sócia da AVM Advogados.

Algumas sociedades de advogados criaram equipas destinadas à transformação do modelo de negócio e, consequentemente, já procuram novas valências nos candidatos. A CMS Rui Pena & Arnaut estima que, durante uma transacção em que apostou na IA, conseguiu ganhos de eficiência na ordem dos 30%, o que agradou o cliente do setor tecnológico em causa, dado que se tratava de numa operação de M&A de grande dimensão, realizada no ano passado. “A título de exemplo, posso dizer que a CMS já há dois anos que está a treinar o Kira, uma tecnologia de revisão automatizada de contratos assente em machine learning. O «go live» do Kira aconteceu em 2017, no setor das Telecomunicações, Media e Tecnologias de Informação (TMT). Foi utilizado na revisão de 2500 contratos, oriundos de 27 jurisdições e produzidos em 23 idiomas”, conta o sócio Francisco Xavier de Almeida ao Jornal Económico. A PLMJ ou a Cuatrecasas também se renderam a este sistema.

No caso da Vieira de Almeida, a transformação tecnológica chegou à sociedade de forma consciente e refletiu-se automaticamente nas situações em que a mobilidade, a colaboração e a eficiência se tornaram mais necessárias. Através de ferramentas como o Microsoft Surface ou o Skype from Business, a firma implementou mecanismos de acesso remoto e virtualização das ferramentas de trabalho, que potencia a partilha de tarefas e documentos dentro do escritório.

Segundo Catarina Cunha e Távora, a introdução de novas ferramentas tecnológicas está a “obrigar” os escritórios de maior dimensão, aqueles que a ela estão mais expostos à transformação digital, “a repensar a formar como oferecem serviços aos seus clientes focando-se, acima de tudo, em oferecer serviços mais eficientes e seguros”. “A eficiência tem um reflexo direto no tempo de resposta ao cliente e, por inerência, atendendo ao modelo tradicional de faturação das sociedades de advogados, nos custos do respetivo serviço cobrado ao cliente”, assegura a sócia da Miranda & Associados.

Como tal, no processo de recrutamento das firmas atualmente, além da formação académica adequada (e nos estabelecimentos de ensino superior conceituados), responsabilidade e organização, constam já conhecimentos a nível tecnológico e digital – pelo menos, quando se procuram estagiários ou advogados mais jovens, quem geralmente possui esta característica, de acordo com a perspetiva dos porta-vozes ouvidos. Em termos de áreas de prática onde a digitalização continuará a estar presente e em constante evolução, os advogados do presente (com um pé no futuro) concordam que será certamente na de TMT, Laboral, Contencioso e Propriedade Intelectual / Proteção de Dados.

Maria João Ricou, managing partner da Cuatrecasas em Portugal, refere que o escritório está particularmente atento a competências colaborativas e tecnológicas, inteligência emocional, literacia financeira, capacidade de adaptação à mudança e de gestão do tempo. “Naturalmente que, além do percurso académico, fatores como o perfil cultural e comportamental, o conhecimento de línguas estrangeiras e o domínio das novas tecnologias são valorizadas”, destaca, por sua vez, Pedro Rebelo de Sousa. O fundador da SRS Advogados enumera ainda o espírito de equipa, o rigor, “o potencial talento, a sólida preparação e vontade de trabalhar”.

Mais do que conhecimento e capacidade técnica, na visão de Domingos Cruz, managing partner da CCA Ontier, os principais factores de diferenciação na advocacia de negócios são os quatro E’s: Experiência, Expertise, Eficiência e Empreendedorismo. “Cada um faz a diferença”, diz, enfatizando que “tranquiliza os clientes” e garante resultados” o ‘estar disponível’ e ser capaz de ter ideias inovadoras.

Publicação
Jornal Económico_07092018_Especial_P12
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Francisco Xavier de Almeida
Sócio
Lisboa